top of page

Da abertura à inteligência: as 4 camadas de criação de valor

  • 10 de abr.
  • 6 min de leitura

Por Mary Ballesta, embaixadora IA4FIN





Durante muito tempo, a criação de valor, no setor financeiro e em grande parte da economia, esteve associada à capacidade de controlar ativos, dados, canais e clientes.


O Open Banking começou a mudar isso, e de forma concreta. Só no Brasil, o ecossistema já movimenta dezenas de milhões de consentimentos ativos e envolve centenas de instituições, criando uma infraestrutura de dados em escala que poucos mercados conseguiram operacionalizar até aqui. Estudos conduzidos por instituições como a FDC e a FGV destacam o país como um dos ambientes mais relevantes para a evolução do Open Finance em larga escala.


Mas talvez o maior equívoco seja ainda ver o fenômeno e tratá-lo como um movimento restrito ao setor financeiro.


O que vimos nos últimos anos foi, na prática, a inauguração de uma nova lógica, a lógica da abertura como infraestrutura de criação de valor.


O setor financeiro foi pioneiro, especialmente no Brasil, ao estruturar um modelo robusto de compartilhamento de dados, interoperabilidade e regulação. Mas ele não é o destino final dessa transformação: é apenas o ponto de partida.

Hoje, essa lógica se expande para além das fronteiras setoriais e nos leva a um novo território, o Open X, um ambiente onde dados, serviços e experiências fluem entre diferentes indústrias, conectando contextos antes isolados.


Essa transformação não é isolada. Segundo a McKinsey, mais de 70% do valor econômico global nas próximas décadas deve vir de modelos baseados em ecossistemas, e não mais de cadeias de valor lineares.


Nesse novo cenário, empresas deixam de operar de forma vertical e passam a atuar como parte de ecossistemas dinâmicos, disputando valor em um campo onde nenhuma delas detém controle absoluto.


Para entender essa transformação, é útil observar como o valor evolui em camadas


A primeira camada, a Access Layer, foi estabelecida com o Open Banking. Aqui, o foco está na abertura de dados, contas, transações, identidade, criando interoperabilidade e reduzindo assimetrias de informação. Ainda assim, seu valor é potencial, abrir dados não garante, por si só, diferenciação.


Na sequência, emerge a Service Layer, impulsionada pelo Open Finance. O foco deixa de ser o dado isolado e passa a ser a orquestração de serviços, crédito, investimentos, seguros, pagamentos integrados, fazendo com que o valor comece a surgir da combinação de capacidades, ainda dentro de um domínio relativamente conhecido.


O verdadeiro salto acontece na terceira camada, a Ecosystem Layer, que podemos associar ao Open X.


Aqui, não é apenas um setor que se transforma, é a própria ideia de setor que começa a perder sentido.


Evolução do Open Economy - Mary Ballesta


As fronteiras tradicionais entre indústrias se dissolvem de forma progressiva, saúde se conecta com mobilidade, consumo se integra a serviços, energia dialoga com comportamento, enquanto o governo passa a atuar como parte ativa desses fluxos. Ao mesmo tempo, dispositivos conectados ampliam continuamente a geração de dados sobre o mundo físico.


O que emerge não é um novo setor dominante, mas um sistema interdependente.


Nesse contexto, produtos deixam de existir de forma isolada e passam a ser componentes de jornadas mais amplas, deslocando o valor da oferta individual para a capacidade de combinar dados, serviços e contextos ao longo da experiência.


Essa transformação acontece de forma quase invisível e sem grandes rupturas aparentes. Empresas vão sendo progressivamente inseridas em ecossistemas mais amplos, conectando-se a plataformas, integrando dados e participando de fluxos que extrapolam seu domínio original.


O resultado é uma mudança silenciosa, mas profunda, não existem mais setores isolados, existem ecossistemas em constante recomposição.

Mas essa expansão traz um novo desafio, a complexidade deixa de ser incremental e passa a crescer de forma exponencial.


À medida que dados, serviços e contextos se multiplicam, torna-se cada vez mais difícil sustentar essa lógica apenas com integrações ou estruturas tradicionais. É nesse ponto que normalmente surge a leitura de que a inteligência seria a próxima camada dessa evolução, mas ainda quando intuitiva resulta uma visão limitada.


A inteligência não se comporta como uma camada adicional, nem ocupa uma posição superior na arquitetura. Ela atua de forma diferente, mais difusa e, ao mesmo tempo, mais estrutural: em vez de se sobrepor às demais, ela atravessa todas elas, conectando, interpretando e dando coerência a um sistema que, sem essa capacidade, tenderia à fragmentação.


O que emerge, portanto, é algo mais profundo, Intelligence as System Orchestration, uma capacidade transversal que conecta, interpreta e ativa todo o sistema.


É essa inteligência que permite que dados abertos façam sentido, que serviços se articulem de forma dinâmica e que os ecossistemas operem de maneira coordenada, mesmo diante de níveis crescentes de complexidade.


Sem ela, a abertura gera fragmentação e, com ela, gera valor.


A inteligência não é uma camada do sistema, é o que permite que o sistema funcione como sistema.


Na prática, isso já está acontecendo em escala exponencial. De acordo com a PwC, a inteligência artificial pode adicionar até US$ 15 trilhões à economia global até 2030, grande parte desse valor vindo da personalização, da automação de decisões e da criação de novos modelos de negócio.


Ao mesmo tempo, um novo vetor começa a ganhar força, a descentralização dos dados.


Se o primeiro movimento foi abrir, o próximo é redistribuir


Tecnologias como blockchain introduzem novas formas de confiança e rastreabilidade, enquanto redes de sensores, cada vez menores e mais presentes, ampliam exponencialmente a geração de dados sobre comportamento e ambiente. Estimativas da International Data Corporation indicam que o volume global de dados deve ultrapassar 175 zettabytes, impulsionado principalmente por dispositivos conectados e interações digitais.


O resultado é um ambiente onde os dados deixam de estar concentrados e passam a existir de forma distribuída, dinâmica e contextual, ampliando o potencial, mas também a complexidade.


E, novamente, é a inteligência que atua como elemento de convergência, permitindo interpretar, combinar e ativar esses dados de forma contínua.

Quanto mais distribuídos os dados, maior a necessidade de capacidade para interpretá-los, e quanto maior a diversidade de fontes, maior o valor potencial de sua combinação. Cria-se, assim, um ciclo exponencial, mais dados geram melhores modelos, melhores modelos geram melhores decisões, que por sua vez criam novas experiências e novos mercados.


Mas há uma camada adicional dessa transformação que ainda é pouco discutida, e que tende a redefinir profundamente a dinâmica dos ecossistemas. 


Estamos entrando na era dos modelos agênticos


Se até aqui falamos de dados abertos, serviços orquestrados e ecossistemas interconectados, o próximo passo é a emergência de jornadas end-to-end totalmente agentizadas, onde decisões, interações e transações deixam de ser conduzidas exclusivamente por humanos e passam a ser operadas por agentes inteligentes.


Esses agentes não apenas executam tarefas, eles interpretam contexto, negociam, tomam decisões e interagem com outros agentes ao longo da cadeia de valor e o efeito disso é duplo e, ao mesmo tempo, paradoxal.


Por um lado, há uma descentralização ainda maior, decisões deixam de estar concentradas em plataformas ou instituições e passam a acontecer de forma distribuída, em múltiplos pontos do ecossistema.


Por outro, surge uma nova forma de intermediação, não mais baseada em controle de canais ou produtos, mas na capacidade de orquestrar redes de agentes e influenciar decisões ao longo da jornada.


A cadeia de valor não desaparece, ela se reconfigura


E, nesse novo modelo, a vantagem competitiva muda novamente de lugar.

Se antes estava no acesso aos dados, e depois na capacidade de integrá-los, agora passa a depender da sofisticação com que esses dados são utilizados para treinar, alimentar e coordenar agentes autônomos.


Porque, em um mundo agentizado, dados deixam de ser apenas insumo e passam a definir comportamento, orientar decisão e determinar resultado.


Não se trata mais apenas de possuir ou acessar informação, mas de garantir qualidade, contexto, governança e capacidade de uso em tempo real, em ambientes onde decisões são tomadas continuamente, muitas vezes sem intervenção humana direta.


A consequência é clara: no Open X, não serão apenas empresas competindo em ecossistemas. Serão agentes competindo, colaborando e negociando dentro deles.


E isso exige um nível de sofisticação na forma como pensamos dados, inteligência e orquestração que ainda estamos apenas começando a construir.


Não por acaso, relatórios recentes da World Economic Forum apontam que a próxima fronteira de competitividade estará na capacidade de operar em ecossistemas digitais complexos, com uso intensivo de dados e inteligência.


Não estamos apenas diante de uma evolução tecnológica, estamos diante de uma redefinição da lógica de criação de valor.


Empresas deixam de competir apenas por escala ou eficiência e passam a competir por sua capacidade de operar em ecossistemas abertos, de navegar em ambientes de dados descentralizados e, sobretudo, de aplicar inteligência para gerar valor contínuo.


O Open Banking será lembrado como o início dessa transformação, mas o que realmente define o futuro é o que vem depois dele.


E a inteligência, aplicada sobre dados em movimento, é o que transforma essa abertura em valor real.


No limite, não se trata mais de quem possui os dados, mas de quem consegue interpretá-los, conectá-los e agir sobre eles em um mundo onde tudo está, simultaneamente, aberto e interligado.


Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
bottom of page