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De operadores a orquestradores: Mary Ballesta e a estratégia nos "black oceans"

  • 24 de fev.
  • 6 min de leitura
Imagem criada com Inteligência Artificial.
Imagem criada com Inteligência Artificial.

Executiva de alta liderança no Santander e com uma trajetória que atravessa nove países da América Latina, Mary Ballesta viu a transformação financeira acontecer "in loco". Agora, ela assume a liderança do pilar de "Estratégia de escala, dados e economia de ecossistemas" da IA4FIN com um aviso: os "oceanos azuis" acabaram.


Nesta conversa exclusiva, ela introduz o conceito de Black Oceans, explica a transição para o Open X e alerta: inovação não é mais uma área, é uma competência de sobrevivência. Confira os destaques:


IA4FIN: Mary, sua carreira atravessa diferentes fronteiras e momentos econômicos. Como essa trajetória se misturou com a evolução tecnológica do mercado? 


Mary Ballesta: Minha carreira foi menos uma escolha e mais uma consequência de adaptação. Sou venezuelana, trabalhei em mais de nove países da América Latina e acompanhei realidades muito distintas. Isso me forçou a olhar organizações como sistemas vivos. Quando cheguei ao Brasil, encontrei um mercado sofisticado e pressionado. Vi a digitalização, depois o Open Banking, o Open Finance e agora caminhamos para o Open X, onde setores inteiros — saúde, mobilidade, serviços — se integram.


Eu não me especializei em inovação por preferência acadêmica; o mercado exigiu esse "power skill". Hoje, estamos entrando no que chamo de era dos Black Oceans: mercados de alto valor, mas que exigem um mergulho profundo. A vantagem não virá de competir na superfície, mas de encontrar espaços de valor que exigem profundidade estratégica.


IA4FIN: Você diz que a IA deixou de ser suporte para ser eixo central. O que mudou? 


MB: A IA não surgiu de repente: ela vem evoluindo silenciosamente há mais de 20 anos. O que mudou recentemente não foi o conceito, foi a capacidade operacional e de processamento que o aumento tecnológico dos últimos anos habilitou e democratizou.


O aumento exponencial do poder computacional, a multiplicação exponencial dos dados disponíveis e de novos dados (como os sintéticos) e de forma geral os novos modelos de linguagem de longa escala, permitiram a transição da IA de ser uma ferramenta associadas apenas a análise de dados e de equipes de dados e passar a usar essa capacidade como verdadeiro agente operacional disponível para todos os tipos de usuários. Pela primeira vez, sistemas não apenas analisam decisões: eles criam eficiência e escalabilidade em diversas áreas do trabalho humano atual.


Nos próximos anos, muitas atividades que hoje são exclusivamente humanas passarão a ser realizadas em colaboração com agentes inteligentes. Não significa 100% automatização, significa um novo modelo de trabalho co-criativo (com IA): cada vez mais passaremos a atuar como copilotos dos nossos próprios agentes.


IA4FIN: E como ficam os clientes nesse cenário de agentes? 


MB: Essa é a mudança definitiva. No futuro, não negociaremos apenas com pessoas, negociaremos com as IAs que representam essas pessoas. Nesse cenário, a distribuição perde protagonismo e o produto volta a ser central: as IAs escolherão as melhores ofertas baseadas em dados, não em publicidade.


IA4FIN: Quais os principais desafios de integrar IA em um ecossistema financeiro tão regulamentado e centrado no cliente?

 

MB: Desde minha ótica, o maior desafio não é técnico, é de governança e ética.

 

O setor financeiro talvez seja hoje o ambiente onde a IA tem maior potencial de valor e, ao mesmo tempo, maior responsabilidade. Nós lidamos com o ativo mais sensível de todos: não apenas dinheiro, mas informação sobre a vida das pessoas como hábitos, renda, saúde financeira, comportamento de consumo e momentos de vulnerabilidade.

 

Por isso, implementar IA exige mais do que modelos e algoritmos. Exige um modelo consistente de governança corporativa de IA. Não basta ter iniciativas isoladas ou squads inovando; é necessário definir critérios claros de responsabilidade, rastreabilidade de decisões, qualidade de dados e accountability. Cada decisão automatizada passa a ser também uma decisão institucional.


A regulamentação não é um obstáculo e, ao meu ver, ela é parte da solução. Quanto mais dados temos, maior é o dever de cuidado. O sucesso da IA no setor financeiro dependerá diretamente da segurança desses dados, da transparência de uso e da capacidade de explicar decisões aos clientes. Confiança não será consequência da tecnologia; será condição crítica para que ela exista.


Outro ponto crítico será a descentralização e a orquestração dos dados. Open Finance, e o que virá com o Open X (ou Open Economy), muda completamente a lógica: os dados deixam de estar apenas dentro do banco e passam a circular em ecossistemas. Isso transforma o papel das instituições financeiras. Nós deixamos de ser apenas provedores de produtos para nos tornarmos guardiões de confiança e integradores e orquestradores de experiências.


No fim, a pergunta central não é “como usar IA?”, mas “como usar IA para melhorar a vida do cliente?”. Se a tecnologia não gerar valor perceptível para o cliente — mais clareza, melhor decisão financeira, mais autonomia — ela será apenas eficiência operacional disfarçada de inovação. E eficiência sem confiança não escala. 


IA4FIN: Por que tantas iniciativas no Brasil ainda travam na fase de "piloto"? 


MB: A maior barreira ainda é o hype. O Brasil, curiosamente, não sofre de falta de adoção tecnológica. Pelo contrário:o país tem uma das curvas mais rápidas de implementação de novas tecnologias em setores regulados. Em vários segmentos, a adoção inicial chega a ser quase 20% mais rápida do que em mercados tradicionais. O problema não é experimentar tecnologia; é transformá-la em valor estrutural.


Um projeto bem-sucedido não é o que implementa tecnologia ou que permite entregar um novo feature ou valor a um produto específico. Um projeto de sucesso é o que materializa e permite escalar a estratégia organizacional. Ou seja, as empresas falham no “vale da transformação”. Muitas escolhem a tecnologia antes da estratégia. Quando essa ordem se inverte, a IA vira um piloto permanente. Sair do piloto para o sistêmico não depende da maturidade da IA, depende da maturidade de gestão.


IA4FIN: Qual o maior desafio para essa integração sistêmica? 


MB: Governança e ética. Lidamos com o ativo mais sensível: informações de vida. Implementar IA exige rastreabilidade e accountability. Se a tecnologia não gerar valor perceptível e confiança para o cliente, será apenas eficiência operacional disfarçada de inovação. E eficiência sem confiança não escala.


IA4FIN: No futuro veremos autonomia total da IA ou governança humana ainda será crítica?

 

MB: Hoje já não estamos mais discutindo se a IA tomará decisões operacionais isso já está acontecendo em crédito, antifraude, precificação e recomendação. A questão real é qual será o papel humano quando a decisão automatizada virar o padrão.


Pesquisas recentes com especialistas em IA indicam que sistemas capazes de superar desempenho humano em grande parte das tarefas cognitivas podem surgir ainda neste século, possivelmente antes de 2125 e as previsões vêm sendo continuamente antecipadas conforme a velocidade de evolução aumenta.

 

O ponto mais importante não é apenas a capacidade da IA, mas a taxa de avanço. Diferente de outras tecnologias, a IA não evolui linearmente: cada geração de modelos melhora a seguinte. O que estamos vendo hoje é um ciclo de melhoria contínua em intervalos cada vez menores, modelos são atualizados em meses, não mais em anos e a capacidade prática cresce em ritmo multiplicativo. Na prática, a escala operacional da IA vem aumentando várias vezes em períodos muito curtos, o que torna o planejamento tradicional das organizações rapidamente obsoleto o que muda completamente o debate.

 

Não estamos caminhando para um cenário de “substituição humana”, mas para um cenário de delegação progressiva de decisões. Operações serão cada vez mais autônomas, mas a responsabilidade ainda não.

 

Quanto mais a IA decide, mais crítico se torna o papel humano de governança: definir limites, riscos aceitáveis, valores e propósito. A máquina otimiza a eficiência. O humano continua responsável pela direção.

 

O desafio não será competir com a IA, e sim decidir onde ela deve parar porque, no fim, a tecnologia não vai determinar os limites que nós vamos.

 

*Observação final da entrevistada:

Esta entrevista foi estruturada com apoio de um assistente de IA. Não porque a voz deixe de ser minha, mas justamente porque hoje pensar bem também envolve saber dialogar com inteligência artificial. A IA organiza, provoca e amplia repertório. A experiência, o julgamento e a responsabilidade continuam sendo humanos. No fundo, o futuro do trabalho não é humano vs máquina. É humano com máquina e a qualidade desse futuro dependerá da nossa capacidade de definir limites, propósito e direção.

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