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O novo diferencial das empresas não será a inteligência artificial, será a inteligência coletiva

  • 3 de ago.
  • 4 min de leitura

Por Helena Levorato, embaixadora IA4FIN




Há algum tempo venho observando a velocidade com que a inteligência artificial está entrando na rotina das empresas, e o que mais me chama a atenção não é apenas a evolução das ferramentas, por mais impressionante que ela seja, mas a maneira como estamos tentando compreender o que tudo isso realmente muda na forma de trabalhar e construir conhecimento.


Até pouco tempo, era natural acreditar que ter acesso à inteligência artificial, por si só, representasse uma vantagem gigantesca, afinal, poucas organizações dominavam essas ferramentas, poucas pessoas sabiam como incorporá-las aos processos e existia a percepção de que quem chegasse primeiro construiria uma vantagem difícil de ser alcançada pelos demais. Mas acredito que isso tenha sido verdade naquele primeiro momento. 


Hoje, porém, o que vejo na prática, dentro de muitas empresas, startups e instituições, é que estamos entrando em uma nova fase, em que a tecnologia será cada vez mais acessível e, por isso, deixará de ser suficiente para diferenciar uma organização.


Tenho percebido que muitas empresas ainda estão concentrando grande parte da energia em escolher plataformas, testar recursos e automatizar atividades, o que é perfeitamente compreensível, porque toda tecnologia nova desperta essa curiosidade quase natural de descobrir tudo o que ela é capaz de fazer. O problema começa quando passamos a acreditar que a simples presença da IA tornará uma empresa mais inteligente, como se a ferramenta, sozinha, fosse capaz de melhorar as decisões, aproximar as áreas, fazer o conhecimento circular ou criar uma cultura mais aberta à inovação. 


O que vejo, na maioria das vezes, é que a inteligência artificial chega a organizações que já possuem seus próprios hábitos, medos, relações de poder e formas muito particulares de lidar com o conhecimento, e é justamente por isso que acredito que a discussão mais importante hoje talvez nem seja quais novas IAs serão implementadas, mas como as pessoas estão aprendendo a pensar melhor com elas, ampliando sua capacidade de análise, de tomada de decisão e de colaboração, usando a tecnologia como uma extensão da própria inteligência, e não como um substituto dela.


A tendência é que, à medida que todas as empresas tenham acesso a ferramentas semelhantes, o diferencial não estará apenas na capacidade de gerar respostas rápidas, mas na maturidade para combinar perspectivas e perceber aquilo que os dados, sozinhos, não conseguem revelar. É justamente nesse ponto que a inteligência coletiva deixa de ser uma ideia interessante e passa a ocupar, na minha visão, um lugar decisivo.


A verdade é que, quanto mais observamos a adoção da inteligência artificial, mais parece que a tecnologia funciona como uma espécie de amplificador, capaz de potencializar tanto as virtudes quanto as fragilidades de uma organização.


É claro que ela pode, de fato, ampliar a capacidade de análise, acelerar aprendizados e abrir possibilidades que antes pareciam mais distantes, mas o que vemos, na prática, é que ela também pode acelerar decisões frágeis, reproduzir os nossos vieses e tornar mais eficientes processos que já nem fazem mais tanto sentido para o momento atual daquele negócio, entende? Isso acontece porque nenhuma tecnologia entra em um ambiente completamente neutro, mas ela encontra uma cultura que já existe. 


Tenho pensado que esse é um ponto que ainda recebe pouca atenção.Vejo que estamos falando muito sobre o que a IA pode fazer, mas talvez ainda falemos pouco sobre quem são as pessoas que passam a utilizá-la. Uma empresa na qual as pessoas não confiam umas nas outras dificilmente se tornará mais colaborativa apenas porque adotou uma plataforma mais avançada.


Acredito que uma das grandes confusões deste momento seja imaginar que máquinas mais inteligentes produzirão automaticamente organizações mais inteligentes. O que tenho visto na verdade sugere algo diferente, porque a tecnologia amplia as capacidades, mas também expõe, e muitas vezes até intensifica, as fragilidades que já estavam presentes.


Quando falo em inteligência coletiva, não estou pensando apenas em colocar mais pessoas em uma sala, criar grupos multidisciplinares ou promover sessões de brainstorming. Claro que tudo isso pode gerar encontros interessantes, mas, ao observar diferentes organizações, vemos que o simples fato de estarmos juntos não significa, necessariamente, que estejamos pensando e construindo algo juntos, e construir juntos é muito diferente de apenas compartilhar o mesmo espaço.


Com frequência, vejo equipes formadas por profissionais brilhantes que, ainda assim, chegam a respostas bastante previsíveis. Isso acontece porque inteligência individual não garante inteligência coletiva. Podemos reunir pessoas com experiências extraordinárias e, mesmo assim, criar um ambiente no qual ninguém se sente preparado para questionar uma decisão, apresentar uma ideia nova ou admitir que não sabe algo.


O fato é que a inteligência coletiva só se torna realidade quando uma pessoa percebe uma parte do problema, outra enxerga uma consequência que ainda não havia sido considerada, a inteligência artificial ajuda a conectar informações que pareciam desconectadas e, pouco a pouco, uma resposta concreta começa a ganhar forma. Mas, o que acontece é que fomos ensinados a construir relevância a partir do domínio individual, como se o nosso valor estivesse naquilo que sabemos e os outros não sabem. Em uma lógica de inteligência coletiva, essa relação muda, porque o conhecimento se torna mais valioso quando circula, encontrando outras perspectivas e se transforma em algo que ninguém conseguiria construir sozinho.


Quando olho para esse cenário, vejo a inteligência coletiva como uma forma de ampliar a percepção de uma organização, porque cada pessoa enxerga uma parte da realidade, os dados revelam outra, a inteligência artificial ajuda a conectar elementos que pareciam distantes e, aos poucos, o sentido começa a surgir dessa combinação.


Tenho refletido muito sobre o que essa mudança exige das lideranças, porque, se a inteligência coletiva realmente se torna um diferencial, o papel de quem lidera também precisa mudar, e o que vejo em muitos ambientes é que as pessoas têm percepções importantes, mas aprenderam a não compartilhá-las. Por isso, acredito profundamente que a segurança para pensar e se expressar será tão relevante quanto o acesso à tecnologia.


Em pouco tempo, praticamente todas as empresas terão acesso a modelos cada vez mais avançados, automações e também, capacidades técnicas semelhantes. A tecnologia continuará evoluindo, claro, mas o acesso a ela deixará de ser uma exclusividade. Sendo assim, o que continuará difícil de copiar será justamente a qualidade das relações, a confiança construída ao longo do tempo, a liberdade para questionar e a disposição de fazer o conhecimento circular.


Talvez a pergunta que realmente importa daqui para a frente seja: enquanto investimos tanto para tornar as máquinas mais inteligentes, estamos evoluindo, na mesma velocidade, a forma como as pessoas pensam, aprendem e constroem conhecimento juntas? O que vocês acham?

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