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Criatividade em tempos de inteligência artificial: qual o impacto real nos times corporativos?

  • 6 de jul.
  • 4 min de leitura

Por Helena Levorato, embaixadora IA4FIN




Durante muito tempo, a criatividade foi tratada como algo que pertencia exclusivamente à sensibilidade humana, à intuição, ao repertório e ao improviso, mas, com a chegada da inteligência artificial generativa, esse território começou a ser questionado. Penso que isso aconteceu porque ela passou a participar de etapas que antes pareciam depender apenas da mente humana, como sugerir ideias, organizar as narrativas, criar imagens, escrever textos e simular possibilidades, bem como propor caminhos e acelerar o que antes levava horas ou dias.


É claro que essa nova realidade preocupa lideranças e seus colaboradores, afinal, se uma ferramenta consegue gerar, em segundos, dezenas de possibilidades para uma campanha, um produto ou uma solução de negócio, o que acontece com a criatividade das equipes? Será que ela se expande ou se acomoda? Ganha mais repertório ou perde profundidade?


Eu tenho acompanhado estudos recentes que nos ajudam a entender melhor esse paradoxo. Uma pesquisa publicada na Science Advances mostrou que ideias geradas com apoio de IA podem aumentar a percepção de criatividade em produções individuais, especialmente entre pessoas que se consideram menos criativas, mas, ao mesmo tempo, os autores observaram um efeito importante, que é o que acontece quando muitas pessoas usam a IA como fonte principal de ideias, os resultados tendem a ficar mais parecidos entre si, e esse talvez seja um dos pontos mais relevantes para os líderes. 


A IA pode, sim, aumentar a produtividade criativa, mas também pode reduzir a diversidade criativa quando todos usam as mesmas ferramentas, com comandos similares, para resolver os mesmos problemas. O risco não é necessariamente produzir algo ruim, sem qualidade, mas sim produzir algo até aparentemente bom, rápido e bem estruturado, mas muito parecido com tudo o que o mercado já está produzindo, reduzindo o seu potencial de diferencial competitivo.


Nos últimos anos, liderando treinamentos de criatividade e inovação em inúmeras organizações, tenho observado como ideias geradas por IA afetam a criatividade humana em ambientes coletivos. Percebo que a IA, de fato, pode até gerar ideias diferentes, mas não necessariamente melhores. Por isso, torna-se cada vez mais importante estabelecer critérios, bem como senso crítico, e sabemos que tais capacidades continuam sendo uma responsabilidade profundamente humana.


Entendemos que a IA não substitui a criatividade humana de maneira automática, mas, de fato, afeta e muda o ambiente no qual a criatividade acontece. Ela altera desde o ritmo das conversas, as expectativas de entrega, a forma como as pessoas pesquisam, até a forma como as pessoas escrevem, decidem e defendem as suas ideias. Sendo assim, é claro que, para algumas equipes, isso pode abrir espaço para mais experimentação, mas, em outras, também pode gerar um tipo de preguiça intelectual muitas vezes confundida com eficiência. E a diferença entre uma coisa e outra está menos na ferramenta e mais na cultura da organização, ou seja, líderes que tratam a IA apenas como um atalho para produzir mais rápido tendem a empobrecer o processo criativo. A equipe aprende a usar a tecnologia para chegar logo a uma resposta, antes mesmo de formular melhor a pergunta.


Já os líderes que entendem a IA como uma parceira complementar do pensamento conseguem criar outro tipo de dinâmica: eles usam a tecnologia para ampliar repertório, testar as hipóteses, comparar as alternativas e provocar perguntas melhores. Nesse contexto, a IA não ocupa o lugar da criatividade humana, funciona mais como uma superfície de contraste, e isso é algo que devolve possibilidades para que as pessoas possam julgar, combinar, refinar e, principalmente, discordar.


Para a liderança, essa talvez seja a principal mudança, porque não basta incentivar o uso da IA, mas é preciso ensinar a pensar junto com a IA.


A inteligência artificial pode ajudar muito nos processos empresariais, mas não carrega sozinha a responsabilidade de dar sentido ao que está sendo criado, porque ela não entende, por si só, a história da empresa, as tensões políticas de uma decisão, ou ainda, o momento emocional de uma equipe e nem, muito menos, os riscos de reputação de uma marca. Ela apenas processa padrões, e quem atribui significado ainda são as pessoas.


Por isso, eu penso que a pergunta mais importante para os líderes agora não seja como a IA vai afetar a criatividade, mas, sim, que tipo de criatividade queremos estimular agora que a IA existe. Se a organização valoriza apenas velocidade, a IA será usada para entregar mais do mesmo em menos tempo, e, se valoriza pensamento crítico, poderá se tornar uma aliada poderosa para explorar as possibilidades e desafiar algumas premissas. A IA, nesse sentido, vai funcionar quase como um espelho da cultura de cada empresa.


Certamente, o impacto da IA na criatividade não será igual para todos. Algumas organizações vão usá-la para sofisticar as suas ideias, enquanto outras vão continuar reduzindo a sua criatividade ao primeiro caminho sugerido pela tecnologia.


O fato é que a IA veio para ampliar possibilidades e abrir novos caminhos, mas ainda cabe aos líderes decidir o que merece atenção, o que precisa ser questionado e, o mais importante, o que realmente cria valor.

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