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IA no setor financeiro: CEO da Kobana explica o futuro dos agentes autônomos

17 de set.
3 min de leitura
João Pedro Brasileiro demonstrando o que pretende abordar na IA4Imersão.
João Pedro Brasileiro demonstrando o que pretende abordar na IA4Imersão.

A rotina das operações financeiras nas empresas atravessa uma transformação profunda com a evolução da tecnologia. A transição da automação tradicional por regras para o uso de agentes autônomos de Inteligência Artificial (IA) tem mudado a forma como departamentos financeiros gerenciam seus processos, riscos e decisões estratégicas.


Para detalhar o impacto dessa mudança, as rotinas operacionais e as perspectivas para o futuro, o fundador e CEO da Kobana — mantenedora da IA4FIN —, Rafael Lima, abordou os principais desafios e avanços da área em entrevista.


Do RPA aos agentes autônomos: a virada no financeiro


A automação baseada em regras, conhecida como RPA (Robotic Process Automation), desempenhou por anos um papel relevante ao automatizar tarefas mecânicas. No entanto, segundo Lima, esse modelo encontra limites no ambiente financeiro, que é dinâmico e sujeito a constantes mudanças imprevisíveis.


"RPA funciona muito bem enquanto o mundo não muda. O problema é que no financeiro o mundo muda toda semana: o banco altera um campo do retorno, o cliente manda o comprovante em outro formato, aparece uma exceção que ninguém previu. Aí a automação quebra e alguém do time vira mantenedor de robô em vez de fazer o trabalho", explica.


O executivo destaca que os agentes autônomos entram justamente para assumir a interpretação de contexto. O primeiro caso de uso recorrente para testar e validar essa confiança costuma ser a conciliação bancária. Por se tratar de um processo repetitivo, de alto volume e com resposta totalmente verificável, o resultado pode ser auditado rapidamente.


"Confiança em IA no financeiro não se constrói com discurso, se constrói com placar", resume o CEO da Kobana.


Governança, limites e controle humano


Uma das principais questões no uso da tecnologia refere-se aos limites de atuação da máquina em relação às decisões operacionais. Rafael Lima compara o controle e o acesso concedidos à IA ao conceito tradicional de alçada corporativa, dividido em três camadas de atuação:


  1. Leitura e interpretação: Busca de extratos, classificação de lançamentos e cruzamento de títulos. O agente atua de forma 100% autônoma, pois o risco é próximo de zero.

  2. Execução com limite: Conciliação dentro de margens de tolerância pré-estabelecidas, envio de réguas de cobrança e geração de segundas vias. O agente resolve a maior parte dos casos e encaminha para o operador humano apenas a fila de exceções.

  3. Movimentação de valores e decisões de caixa: Pagamentos, descontos e renegociações fora da política. Nessas instâncias, o agente organiza, justifica e prepara os dados, mas a aprovação final e a responsabilidade são obrigatoriamente humanas por motivos de governança.


"O agente pode decidir muita coisa, mas quem responde pelo dinheiro continua sendo gente", salienta o executivo.


Rastreabilidade, correção e quebra de barreiras culturais


O medo de alucinações e a perda de controle sobre os números são receios frequentes entre líderes financeiros e CFOs. De acordo com o fundador da Kobana, a resposta para essas objeções envolve o uso de dados estruturados e a manutenção de logs completos que garantem a auditabilidade de cada ação.

"Toda decisão precisa registrar o que o agente viu (qual dado, de qual fonte, em que momento), o que ele concluiu, qual ação tomou e sob qual política", afirma Lima.


Caso ocorra algum desvio ou comportamento indesejado pelo sistema, o CEO desaconselha desligar a tecnologia. A orientação é reduzir a alçada de atuação, ajustar as políticas e rodar o agente temporariamente em shadow mode (modo sombra, onde o sistema decide, o humano confere e nada é executado sem validação) até que os índices de acerto sejam restabelecidos.


"Começa pequeno, num processo que o próprio time odeia fazer, com métrica combinada antes de começar. Roda em shadow mode primeiro. Mostra o resultado em número, não em slide", orienta o especialista sobre a superação das barreiras culturais.


O novo perfil do profissional de finanças


Olhando para o futuro dos departamentos financeiros, a tendência é a migração de equipes focadas na execução operacional para profissionais dedicados à gestão e supervisão desses agentes tecnológicos.


Rafael Lima enfatiza que essa transição não significa a eliminação das equipes, mas a transformação da rotina diária, liberando os profissionais de digitações e conferências manuais para focarem em tarefas estratégicas, leitura de riscos e relacionamento.


Nesse novo cenário, o profissional de finanças precisará desenvolver novas competências indispensáveis:


  • Visão holística do processo: Entendimento profundo do fluxo operacional para poder instruir e supervisionar o trabalho dos agentes.

  • Comunicação e escrita precisa: Habilidade para definir políticas, orientações e limites de forma clara.

  • Senso crítico e experiência: Capacidade de identificar inconsistências nos resultados apresentados, utilizando a senioridade analítica.


"O financeiro para de ser visto como centro de custo operacional e passa a ocupar o lugar que sempre deveria ter ocupado, que é ajudar a empresa a decidir. Não é a IA fazendo o trabalho do time. É a IA devolvendo pro time o trabalho que importa", conclui Rafael Lima.

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