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Quando a computação quântica chegar de verdade, ainda haverá tempo para se preparar?

17 de set.
4 min de leitura

Por Stefano Levorato, embaixador IA4FIN




Durante muito tempo, a computação quântica ficou em um lugar relativamente confortável para as lideranças, ou seja, importante o suficiente para aparecer nas conversas sobre o futuro, mas distante o bastante para não exigir nenhuma decisão no presente. Mas tenho a impressão de que essa percepção começa a mudar. A tecnologia ainda está longe de substituir a infraestrutura computacional que usamos hoje, mas, quando observo principalmente setores como bancos e seguros, já não me parece um assunto que possa ser acompanhado apenas à distância, e isso acontece porque esses mercados trabalham justamente com alguns dos problemas em que a computação quântica pode fazer diferença no futuro. 


Bancos, por exemplo, precisam calcular risco, otimizar carteiras, detectar fraudes, analisar correlações e tomar decisões sobre volumes enormes de dados, enquanto seguradoras lidam com probabilidades, eventos raros, sinistros e combinações cada vez mais complexas de riscos, mas isso não significa que computadores quânticos vão substituir os atuais, e provavelmente nem será assim que essa transformação acontecerá. O que tenho observado é um movimento muito mais gradual, com aplicações híbridas e experimentações em problemas específicos, justamente onde a capacidade computacional atual começa a encontrar seus limites. O Fórum Econômico Mundial já aponta modelagem de risco, detecção de fraude e otimização de portfólios entre os casos de uso mais promissores para serviços financeiros. 


Talvez seja por isso que eu ache perigoso imaginar que essa discussão só começa quando tivermos um computador quântico universal e plenamente tolerante a falhas. A McKinsey já observa instituições financeiras saindo de provas de conceito isoladas para cocriar aplicações com empresas especializadas e estima um potencial econômico entre US$ 400 bilhões e US$ 600 bilhões para o setor financeiro até 2035, e quando estamos falando de mercados que movimentam volumes enormes de capital, uma pequena melhora na otimização de uma carteira, na identificação de fraude ou na redução de falsos positivos pode representar muito dinheiro. Quem está experimentando agora não necessariamente espera retorno imediato, mas está aprendendo quais problemas fazem sentido, quais não fazem tanto e quais competências precisará desenvolver antes que essa tecnologia amadureça completamente. 


Mas existe uma outra parte dessa conversa que, na minha análise, é ainda mais urgente que é a segurança. Grande parte da nossa infraestrutura digital depende de sistemas criptográficos cuja proteção está justamente na dificuldade de resolver determinados problemas matemáticos com computadores tradicionais. Um computador quântico suficientemente poderoso poderá mudar essa equação e comprometer algoritmos que hoje protegem transações, identidades, comunicações e informações sigilosas. O NIST já disponibilizou padrões de criptografia pós-quântica e recomenda que as organizações comecem a preparar essa migração. 


E aqui existe um risco particularmente interessante, conhecido como store now, decrypt later, o que significa que alguém pode capturar informações criptografadas hoje, armazená-las e esperar até que exista capacidade computacional para descriptografá-las. Para uma empresa que possui dados financeiros, propriedade intelectual, contratos ou informações estratégicas que precisam continuar confidenciais durante muitos anos, isso muda bastante a ideia de quando devemos começar a nos preocupar. O fato é que não precisamos esperar a ameaça chegar para descobrir quais ativos estavam vulneráveis. 


É justamente por isso que, se eu estivesse estruturando hoje a preparação quântica de um banco, seguradora ou grande empresa, não começaria comprando tecnologia nem montando um departamento enorme, mas criaria uma pequena equipe multidisciplinar, envolvendo tecnologia, segurança, dados, inovação, risco e negócio, trabalhando em duas frentes que gosto de pensar como defesa e ataque.


Na defesa, começaria pelo que a empresa não pode se permitir perder. Quais dados e informações estratégicas precisam continuar confidenciais daqui a cinco, dez ou vinte anos? Onde eles estão? Como estão protegidos? A partir desse mapeamento, seria possível identificar exposições e construir uma migração gradual para criptografia pós-quântica, priorizando os ativos mais sensíveis. Essa preparação precisa começar cedo justamente porque mudanças criptográficas em organizações complexas podem levar anos. 


Ao mesmo tempo, a frente de ataque partiria de uma pergunta bem diferente: quais problemas importantes do nosso negócio ainda são difíceis demais para as ferramentas que temos hoje? Em um banco, podemos estar falando de otimização de portfólios, risco, fraude, liquidez ou simulação de cenários; em uma seguradora, de subscrição, correlação de riscos ou previsão de eventos extremos. Eu não tentaria provar que a computação quântica resolve tudo isso, mas descobrir onde existe valor econômico suficiente para começar a experimentar, inclusive em parceria com universidades, startups e provedores especializados. 


E levaria também essa reflexão um pouco além: se amanhã tivéssemos uma capacidade de cálculo muito superior para determinadas tarefas, o que conseguiríamos fazer que hoje ainda não conseguimos? Talvez não seja apenas calcular melhor um risco, mas criar produtos financeiros mais personalizados, novas formas de precificação ou capacidades analíticas que hoje são inviáveis. 


Tenho pensado que talvez essa seja a melhor forma de olhar para a computação quântica neste momento. É claro que ainda não sabemos exatamente quando determinadas aplicações chegarão à escala comercial, e certamente não precisamos transformar toda empresa em um laboratório quântico, mas existe uma janela interessante agora, justamente porque ainda há tempo para aprender, formar pessoas, testar possibilidades e proteger aquilo que precisará continuar totalmente seguro no futuro.


Acredito inclusive que, quando essa tecnologia começar a produzir vantagens concretas, provavelmente o diferencial não estará simplesmente em ter acesso a um computador quântico, porque esse acesso poderá ser contratado, mas o que levará muito mais tempo para construir é exatamente o conhecimento para saber onde utilizá-lo, por que utilizá-lo e que valor conseguimos criar a partir dele. 


Sendo assim, penso justamente nessa capacidade como uma das mais importantes que as empresas precisem começar a desenvolver agora.

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