Risco de crédito em IA e dados dos EUA pressionam mercados e o FMI

O ecossistema global de inteligência artificial enfrenta um momento de profunda reavaliação nos mercados de capitais e nos organismos multilaterais. Embora os aportes em infraestrutura computacional e data centers permaneçam como o principal motor de sustentação da atividade econômica global, a combinação de juros em patamares elevados, pressões inflacionárias nos Estados Unidos e o alto endividamento do setor acenderam alertas vermelhos sobre a sustentabilidade financeira das empresas de tecnologia.
Acompanhe, a seguir, o compilado com os três principais acontecimentos que movimentaram o setor financeiro e de tecnologia nesta semana.
Disparada nos seguros contra calote expõe gargalo de crédito no setor de IA
O aumento expressivo no custo dos Credit Default Swaps (CDS) — instrumento financeiro utilizado como seguro contra inadimplência — revelou uma nova vulnerabilidade no avanço da inteligência artificial. A dependência de alavancagem financeira massiva para financiar a expansão de data centers e capacidade computacional passou a ser observada com maior rigor por investidores e agências de risco de crédito.
O estresse atinge com mais força as operadoras de infraestrutura e neoclouds altamente endividadas. O CDS de cinco anos da CoreWeave, por exemplo, ultrapassou os 1.100 pontos-base, sinalizando uma probabilidade implícita de inadimplência de 64% em cinco anos, enquanto o seguro da Oracle aproximou-se de 300 pontos-base. O cenário reflete a transição do modelo de financiamento do setor, antes bancado pelo fluxo de caixa livre das grandes empresas de tecnologia (Big Techs), para a emissão de dívidas de alto rendimento (high yield). O movimento pressiona a exigência por retorno sobre o capital investido (ROIC) e gera efeitos em toda a cadeia de hardware e renda fixa.
FMI eleva projeção do PIB global para 3,1%, mas alerta para dependência da IA
Os investimentos maciços em tecnologia e infraestrutura de inteligência artificial tornaram-se a principal força de sustentação da economia mundial. No relatório Perspectiva Econômica Global, divulgado em Bangcoc, o Fundo Monetário Internacional (FMI) elevou a estimativa de crescimento do PIB global de 3,0% para 3,1%, apontando que a cadeia de suprimentos de tecnologia ajudou a amortecer os impactos da crise energética e de conflitos geopolíticos no Oriente Médio.
Entre 2023 e 2025, as exportações mundiais de equipamentos e produtos ligados à tecnologia cresceram 29%, ritmo mais de três vezes superior à expansão do comércio global. No entanto, o FMI fez um alerta contundente para a concentração e os riscos sistêmicos dessa dinâmica. Apenas 32 países respondem por 95% do crescimento mundial, beneficiando potências desenvolvedoras de modelos e exportadores de insumos como Coreia do Sul, Malásia, Tailândia e México. O órgão ressaltou que uma eventual frustração nos ganhos de produtividade esperados pela IA pode desencadear uma correção abrupta de mercado, capaz de reduzir o PIB dos EUA em até 0,8% e o mundial em 1,1% até 2028.
Ações de tecnologia caem globalmente após inflação nos EUA e dados da Anthropic
Uma forte onda de vendas atingiu as ações de tecnologia nos principais centros financeiros internacionais, levando investidores a realizarem lucros e buscarem proteção em títulos de renda fixa. A pressão afetou os contratos futuros dos índices S&P 500 e Nasdaq 100, estendendo desvalorizações a fabricantes de chips e provedores de infraestrutura nos Estados Unidos, Europa e Ásia.
A busca por proteção reflete a combinação de dados de inflação mais fortes do que o esperado nos EUA — o que sinaliza a permanência de juros altos por mais tempo — com a desaceleração no ritmo de expansão das receitas de desenvolvedoras de IA. A divulgação dos números do terceiro trimestre da Anthropic, que reportou receita de US$ 16,8 bilhões, indicou um ritmo de crescimento menor do que as projeções parabólicas aguardadas por Wall Street. O movimento provocou perdas na cadeia asiática de semicondutores, atingindo gigantes como Samsung Electronics, SK Hynix e TSMC, e evidenciou o aumento da concorrência dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) em relação ao mercado acionário.



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