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IA, Produtividade e o Pensamento Terceirizado

2 de set
3 min de leitura

Por Helena Levorato, embaixadora IA4FIN




Eu tenho acompanhado com bastante interesse todo esse entusiasmo em torno do ganho de produtividade trazido pela inteligência artificial nas empresas e, de fato, ele é real, porque hoje conseguimos organizar informações, estruturar apresentações, revisar textos, gerar hipóteses e acelerar tarefas que antes consumiam horas. Mas, ao mesmo tempo em que vejo esse ganho acontecendo, comecei a pensar em uma outra questão, talvez menos óbvia, que é o quanto dessa produtividade vem acompanhada também de uma transferência de etapas do nosso próprio pensamento para a tecnologia.


Quanto mais usamos essas ferramentas no dia a dia, mais importante me parece observar não apenas o que estamos conseguindo fazer mais rápido, mas quais partes do raciocínio deixamos de percorrer quando a IA passa a antecipar respostas, organizar ideias e até definir caminhos antes de nós.


Tenho a impressão de que boa parte da conversa sobre IA ainda está muito concentrada no que conseguimos fazer com ela e menos no que deixamos de exercitar quando recorremos à tecnologia cedo demais. Existe uma diferença importante entre chegar à IA depois de termos pensado um pouco sobre o problema, levantado algumas possibilidades e construído uma primeira percepção, e recorrer a ela logo de início, quando ainda nem tivemos a oportunidade de formar nosso próprio entendimento sobre aquilo.


E penso que esse ponto merece atenção, porque aquele intervalo em que a gente ainda não sabe exatamente o que fazer, busca referências, faz associações, testa possibilidades, erra e muda de direção pode parecer improdutivo, mas é justamente nesse processo que uma parte importante do nosso pensamento crítico se constrói.


Quando olho para isso pela perspectiva dos estudos do comportamento e da cognição, entendo que capacidades como pensamento crítico, criatividade, argumentação e tomada de decisão não aparecem apenas no momento em que entregamos uma resposta, mas elas também são desenvolvidas durante o caminho que fazemos para chegar até ela, e talvez seja por isso que me preocupe um pouco com a facilidade de receber uma resposta antes mesmo de termos construído critérios para avaliá-la.


A IA consegue apresentar argumentos coerentes, sugerir ações e responder com uma segurança que muitas vezes torna aquela primeira resposta bastante convincente e, se não estivermos atentos, podemos seguir a partir dela sem questionar suas premissas, sem considerar outras interpretações ou mesmo, sem perceber aquilo que ficou de fora.


No ambiente corporativo, essa discussão ganha uma outra dimensão, porque, à medida que as mesmas ferramentas de IA se tornam acessíveis para praticamente todos, simplesmente utilizá-las tende a deixar de ser um diferencial competitivo. Sendo assim, se empresas e profissionais passam a ter acesso às mesmas capacidades de pesquisa, análise e produção, o diferencial começa a aparecer na forma como cada um utiliza aquilo que recebe, como por exemplo, no repertório que acrescenta, nas perguntas que faz e nas conexões que consegue construir.


Penso que é justamente aí que a alfabetização em IA precisa avançar para além dos prompts e do domínio de novas plataformas, porque a tecnologia pode ampliar a produtividade de muitas pessoas ao mesmo tempo, mas transformar essa capacidade em novas soluções e valor real para o negócio ainda depende muito da qualidade do pensamento que colocamos sobre ela.


Acredito que um dos desafios mais interessantes para as lideranças nos próximos anos será justamente entender o que faz sentido delegar à IA e quais etapas ainda precisam continuar sob nossa responsabilidade, porque ganhar tempo é importante, mas nem todo tempo dedicado a pensar deveria ser entendido como improdutivo.


Às vezes, tentar organizar uma ideia antes de recorrer à tecnologia, analisar um problema ou explorar algumas possibilidades pode ser exatamente o que nos ajuda a construir uma perspectiva própria e mais ampla. Já em outros momentos, claro, faz todo sentido delegar tarefas repetitivas e liberar nossa atenção para decisões mais importantes. Perceba que não levo essa discussão como uma defesa de usar menos IA, mas de entender melhor o que estamos escolhendo terceirizar para ela.


Eu mesma tenho usado cada vez mais inteligência artificial no meu trabalho e, quanto mais uso, mais percebo que essa relação também precisa ser aprimorada. Em alguns momentos, quero que a IA faça por mim tudo aquilo que acredito que não faz mais sentido consumir meu tempo e, em outros momentos, entendo que preciso continuar presente no processo, porque é justamente quando analiso e questiono, ou discordo e faço uma conexão diferente daquela que a ferramenta sugeriu é que o meu repertório entra em jogo para enriquecer os resultados. Mas acredito que só vamos perceber melhor essas diferenças à medida que o uso da IA se tornar ainda mais frequente, entendendo mais claramente onde ela realmente nos ajuda a avançar e onde ainda vale a pena percorrer parte do caminho por conta própria. 


É nesse contexto que imagino que as pessoas e organizações que conseguirem construir esse equilíbrio terão mais condições de aproveitar todo potencial da tecnologia sem empobrecer aquilo que ainda depende essencialmente de nós.

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